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A Faixa Malhada (1ª parte)
Título original: The Speckled Band
Publicado em The Strand Magazine, Londres, 1892
 
 
 
 
     Ao fazer uma revisão das minhas anotações sobre os setenta e tantos casos nos quais, durante estes últimos oito anos, tenho estudado os métodos de meu amigo Sherlock Holmes, encontro alguns trágicos, outros cômicos, e um grande número de casos apenas estranhos, mas nenhum comum, porque, trabalhando como ele o faz, mais por amor à arte do que para enriquecer, sempre se recusou a associar-se a qualquer investigação que não apresentasse coisas fora do comum e até fantásticas. De todos esses casos, não posso recordar nenhum que apresente características mais singulares do que aquele que teve relação com a conhecida família dos Roylott, em Stoke Moran, em Surrey. Os acontecimentos em questão ocorreram nos primeiros tempos da minha amizade com Holmes, quando alugamos uns aposentos, como solteiros que éramos, na Baker Street. Eu já podia tê-los contado, mas uma promessa de mante-los em segredo havia sido exigida, e só no mês passado fiquei livre dela, pela inesperada morte da senhora a quem fora feita a promessa. Talvez seja bom que os fatos agora se tornem conhecidos, porque tenho razões para pensar que há rumores a respeito da morte do dr. Grimesby Roylott que tendem a tornar o assunto mais terrível do que é na verdade.

     Foi em abril de 1883. Ao acordar, encontrei Sherlock Holmes de pé, vestido, ao lado de minha cama. Geralmente ele se levantava tarde, e, quando olhei para o relógio e vi que eram apenas sete e quinze, olhei-o surpreso, e talvez um pouco aborrecido, porque eu era sempre pontual nos meus hábitos.
- Sinto muito acordá-lo, Watson - disse ele -, mas é a sorte de todos hoje. A sra. Hudson foi acordada cedo, chamou-me, e agora sou eu que o chamo.
- O que é então? Um incêndio?
- Não, uma cliente. Chegou há pouco uma jovem, muitíssimo nervosa, e insiste em ver-me. Está esperando na sala de estar. Suponho que, quando as jovens começam a vaguear pela cidade a estas horas da manhã e a acordar os que dormem ainda, algo de muito importante têm a comunicar. Se provar ser um caso interessante, tenho a certeza de que você quererá segui-lo desde o começo. Em todo caso, pensei que devia chamá-lo para lhe dar esta oportunidade.
- Meu caro amigo, fez muitíssimo bem.

    Meu maior prazer era acompanhar Holmes nas suas investigações profissionais e admirar as deduções e intuições rápidas, sempre baseadas na lógica, com as quais ele deslindava os problemas que lhe eram submetidos.

    Vesti-me apressadamente e pouco depois estava pronto para acompanhar meu amigo até a sala. Uma moça vestida de preto, o rosto coberto por um véu espesso, estava sentada à janela, mas, quando chegamos, levantou-se.
- Bom dia, senhorita - disse Holmes alegremente.- Meu nome é Sherlock Holmes. Este é meu íntimo amigo e companheiro, dr. Watson; pode falar francamente na sua presença como se fosse para mim só. Ah! Vejo que a sra. Hudson teve o bom senso de acender o fogo. Peco-lhe o favor de se aproximar mais dele, e vou mandar vir uma chávena de café bem quente para a senhora, porque vejo que está tiritando de frio.
- Não é de frio - disse ela em voz baixa e mudando de lugar, conforme fora convidada.
- O que é então?
- É medo, sr. Holmes. É medo.

    Levantou o véu ao falar, e pudemos ver que estava realmente num estado doloroso de agitação, o rosto descorado, os olhos irrequietos e amedrontados como os de um animal preso. Parecia ter uns trinta anos, porém já tinha alguns cabelos grisalhos prematuros; sua expressão demonstrava cansaço e seu semblante estava desfigurado. Sherlock Holmes examinou-a com um dos seus olhares rápidos e abrangentes.
- Não deve ter medo - disse ele calmamente, inclinando-se para ela e pousando-lhe a mão no braço. - Depressa resolveremos o assunto, sem dúvida. Vejo que hoje veio de trem.
- Então o senhor me conhece?
- Não, mas notei o bilhete de regresso na palma da sua luva. Deve ter saído cedo, mas também viajou de charrete, por estradas ruins, até a estação.

    A jovem ficou atônita e olhou alarmada para o meu companheiro.
- Não há mistério nisso, senhorita - disse ele sorrindo. - A manga esquerda do seu casaco está salpicada de lama nuns sete lugares, e é lama fresca; não há como uma charrete para nos encher de lama, e a senhora sentou-se à esquerda do cocheiro.
- Sejam quais forem suas razões para dizer essas coisas, é mesmo verdade - disse ela. - Saí de casa às seis horas, cheguei a Leatherhead às seis e vinte, e vim no primeiro trem para Waterloo. Senhor, não posso aguentar mais esta tensão nervosa, e, se continuar, ficarei doida. Não tenho ninguém a quem possa apelar... ninguém a não ser uma pessoa que gosta de mim, e ele, pobre rapaz, não pode fazer nada. Ouvi falar do senhor, sr. Holmes, por intermédio da sra. Farintosh, a quem o senhor ajudou numa ocasião em que ela necessitava de auxílio. Foi por intermédio dela que obtive seu endereço. Oh!, senhor, será que pode também ajudar-me ou pelo menos esclarecer um pouco a escuridão que me cerca? Atualmente não posso recompensá-lo pelo seu trabalho, mas dentro de uns dois meses vou me casar, e então terei o controle pessoal do que é meu. A essa altura, pelo menos, o senhor não me considerará ingrata.

    Holmes virou-se para a sua escrivaninha e, abrindo-a, tirou uma caderneta de notas e consultou-a.
- Farintosh - disse ele. - Ah!, sim, lembro-me do caso; tratava-se de um diadema de opalas. Foi antes de você vir morar aqui, Watson. Só tenho a dizer, senhorita, que terei prazer em dar a seu caso a mesma atenção que dediquei à sua amiga. Quanto à recompensa, minha profissão traz por si mesma uma compensação; no entanto, a senhorita terá a liberdade de me reembolsar de qualquer despesa que houver quando lhe for conveniente. E agora, peco-lhe que nos conte tudo o que nos possa ajudar a formar uma opinião sobre o assunto.
- Ai de mim! - respondeu a nossa visitante. - O próprio horror da minha posição está no fato de que meus temores são muito vagos e minhas suspeitas dependem inteiramente de uns pequenos fatos, que podem parecer tão triviais aos outros, que até a pessoa de quem, acima de todos, tenho o direito de esperar algum apoio e conselho considera tudo o que vou lhe contar fantasia de mulher nervosa; não o diz, mas sinto-o, quando desvia os olhos e me dá respostas calmas. Mas sei, sr. Holmes, que o senhor perscruta as coisas mais profundas dos corações humanos, descobrindo a sua perversidade. O senhor talvez possa aconselhar-me como agir em meio aos perigos que me circundam.
- Sou todo atenção, senhorita.
- Meu nome é Helen Stoner, e moro com meu padrasto, que é o último representante de uma das famílias saxônicas mais antigas da Inglaterra, os Roylott, de Stoke Moran, na margem ocidental do Surrey.
    Holmes acenou com a cabeça.
- O nome me é familiar - disse ele.
- A família era, antigamente, uma das mais ricas da Inglaterra. A herdade estendia-se sobre os limites dos condados de Berkshire, ao norte, e Hampshire, a oeste. No século passado, todavia, quatro dos herdeiros foram homens dissolutos e de disposição esbanjadora, e a ruína da família finalmente ocorreu com um jogador nos dias da Regência. Nada restou, senão alguns lotes de campo e a casa secular, e essa, sob o encargo de uma pesada hipoteca. O último dono arrastou literalmente sua existência ali, levando uma vida horrível de aristocrata pobre; seu único filho, meu padrasto, vendo que tinha de adaptar-se às novas condições, pediu um empréstimo a um parente, que o habilitou a formar-se em medicina, e foi para Calcutá, onde, pela sua aptidão e força de caráter, se estabeleceu com grande clientela. Enraivecido, porém, por uns furtos que haviam sido feitos na sua casa, agrediu o copeiro, causando-lhe a morte, e por pouco escapou de uma sentença capital. Mesmo assim ficou preso durante muito tempo e voltou para a Inglaterra transformado num homem desapontado e melancólico.

     "Quando o dr. Roylott foi para a Índia, casou-se com minha mãe, sra. Stoner, viúva do major-general Stoner, da artilharia de Bengala. Minha irmã e eu éramos gémeas e tínhamos apenas dois anos quando nossa mãe se casou pela segunda vez. Ela tinha bastante dinheiro, umas mil libras anuais, que legou ao dr. Roylott durante todo o tempo que morássemos com ele, com prescrição de que certa soma anual fosse concedida a cada uma de nós no caso de nos casarmos. Logo após nosso regresso à Inglaterra, minha mãe morreu num desastre ferroviário perto de Crewe. Isso foi há oito anos atrás. O dr. Roylott abandonou a clientela que começara a adquirir em Londres e levou-nos para viver com ele na casa ancestral de Stoke Moran.
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